terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ALGUNS FATORES QUE DISTORCEM A VISÃO DA IGEJA - Parte 02


2. Escatologia Futurista

 

René Padilla[1] também fala de igrejas que têm uma “escatologia futurista”, na qual a religião é “um meio de escape da realidade presente”. Segundo ele, esta preocupação com o “ultramundo” leva a um “total desconhecimento dos problemas da sociedade”, pois o foco está colocado na “superação do mundo”.







Combatendo esta ultramundanidade, ele aponta que a missão de Jesus Cristo não “se limitou apenas à pregação do evangelho”, mas este foi um dos elementos da mesma. Baseando-se no evangelho de Mateus[2], Padilla acrescenta que junto com o anúncio do evangelho (kerygma) está o serviço (diakonia) e o ensino (didaquê). Isso mostra que o conceito de salvação de Jesus não se resume “ao perdão dos pecados e a segurança de uma vida interminável com Deus no céu”, mas vai além, visando o homem como um todo:

Uma visão integral da salvação corresponde a uma missão integral. Salvação é saúde. Salvação é humanização total. Salvação é vida eterna, vida do Reino de Deus, vida que começa aqui e agora (este é o sentido do presente do verbo em ‘tem vida eterna’ no evangelho e nas cartas de João) e atinge todos os aspectos do ser do homem. (p.34).


Ainda combatendo essa ultramundanidade, Padilla mostra que “a obra de Cristo teve uma dimensão social e política”. Isso é percebido quando Jesus renuncia várias alternativas políticas (farisaísmo, saduceísmo, zelotismo e o essenismo) e proclama o Reino de Deus: “Dizer que Jesus é o Cristo é descobri-lo em termos políticos, é afirmar que ele é o rei. Seu reino não é deste mundo, não porque não tenha nada a ver com o mundo, mas porque não se amolda a política dos homens”.

Para Padilla, isso mostra que Jesus não se escondeu no “religioso” ou “espiritual” como se seu reino não tivesse nada a ver com a política e o social, mas assumiu uma postura de denúncia e apresentou seu modelo político, que se baseou no “amor, serviço e auto-entrega”. Ele termina sua discussão sobre a ultramundanidade afirmando que, da perspectiva bíblica,

Não há lugar para o descaso com o próximo, nem para a ‘paralisia escatológica’, ou para a ‘greve social’, e muito menos para uma evangelização que, diante do sofrimento de alguém, veja nele apenas ‘uma alma que deve salvar-se’, mas passa por cima do homem.[...] A igreja não é um clube religioso ultramundano que organiza excursões ao mundo para ganhar adeptos mediante técnicas de persuasão. Ela é o sinal do Reino de Deus: vive e proclama o evangelho aqui e agora em meio a homens, à espera da consumação do propósito de Deus de colocar todas as coisas sob o mando de Cristo. (1992, p.36, 37)


3. Mau Entendimento Sobre o Homem


Além da alienação da igreja quanto ao seu papel na comunidade, John Stott[3] argumenta que a mesma se distanciou do engajamento social por causa da “dicotomia que se desenvolveu no nosso modo de pensar”. Tal dicotomia, segundo ele, se estabelece da contraposição entre corpo e alma, indivíduo e sociedade, redenção e criação, fé e obras, etc.

Este pensamento dicotômico foi herdado da filosofia grega, mais especificamente de Platão. O dualismo platônico estabelecia um contraste entre matéria e espírito, finito e infinito, mundo e Deus. Além do mais, identificava a matéria como má e o espírito como bom. Segundo este filosofo, o homem estava em constante desordem, pois seu corpo era inimigo do espírito, o sentido se opunha ao intelecto e a paixão se contrastava com a razão[4].

 





 
Stott ressalta que a Bíblia faz distinção entre o espiritual e o material, mas também os relaciona dinâmica e equilibradamente. O problema se configura quando os dois são totalmente separados, o que leva a um dualismo, ou quando são totalmente fundidos, configurando um monismo (sistema filosófico que defende a existência de apenas uma espécie de realidade). 

Quanto a isso Stott deixa bem claro que o homem não é apenas alma “para que preocupássemos apenas com a salvação eterna”, nem apenas corpo “para nos preocuparmos com a saúde, roupas e abrigo”, muito menos ainda apenas um ser social “para que nos ocupássemos inteiramente com seus problemas comunitários”.

Esse secionamento do homem também é tratado por Anthony Hoekema[5]. Segundo ele, “um dos aspectos mais importantes do conceito cristão do homem é que devemos vê-lo em sua unidade, como uma pessoa integral”.  

Hoekema esclarece que “embora a Bíblia veja o homem como uma totalidade, um ser unitário”, ela também reconhece que o ser humano tem dois aspectos: “o físico e o não-físico”. Neste sentido, o autor prefere usar o termo “unidade psicossomática” para designar o homem, pois esta expressão “faz plena justiça aos dois aspectos do homem e, ao mesmo tempo, enfatiza sua unidade”.

Discutindo as implicações desse secionamento do homem, Hoekema aponta que a igreja deve se preocupar com a pessoa integral. Em sua evangelização e missão,  ela não pode esquecer que as pessoas têm necessidades físicas e espirituais, optando assim pelo o que ele chama de “abordagem inclusiva”, ou seja, que não se preocupa apenas em converter pessoas à Cristo: 


...mas também em melhorar as condições de vida desses convertidos e seus vizinhos, trabalhando em áreas como agricultura, alimentação e saúde. O estabelecimento de escolas, para educação cristã do povo local e a manutenção de clínicas e hospitais para cuidado de saúde regular e de emergência, entretanto, não deve ser considerado algo fora da esfera de ação missionária da igreja, mas como um aspecto essencial desta. (1999, p. 246).









[1] PADILLA, René. Missão Integral da Igreja. São Paulo: Temática Publicações/FTL, 1992.
[2] Mateus 4.23, cf.  Mateus 9.35.
[3] STOTT, John R. W. Evangelização e Responsabilidade Social. São Paulo: ABU e Belo Horizonte: Visão Mundial, 1983.
[4] PADOVANI, Umberto & CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 15ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1990.
[5] HOEKEMA, Anthony. Criados à Imagem de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 1999.